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Como foi o seu início profissional?
Raul Randon – Aos 14 anos, iniciei trabalhando na ferraria do meu pai, que fabricava ferramentas agrícolas. Ali, trabalhei até os 18 anos, quando em janeiro de 1948 entrei para o quartel. Quando retornei um ano depois, meu irmão Hercílio tinha montado sua oficina no pavilhão do nosso pai, que trabalhava na reforma de motores. Em 1950, um amigo de meu irmão teve a idéia de fazer máquinas impressoras em sociedade conosco. Fabricamos 12 máquinas, que foram vendidas e “funcionavam muito bem”. No dia 26 de março de 1951, enquanto estávamos numa festa da procissão de Nossa Senhora do Caravaggio, o padre anunciou que a oficina estava incendiando. A sociedade foi desfeita. Continuamos a reformar motores na oficina de manutenção da fábrica de tecidos Matteo Gianella e na empresa Evaristo de Antoni. À parte, íamos construindo o pavilhão para instalar a nossa própria oficina. Em 1953, um amigo, Cláudio Corso, nos apresentou um italiano chamado Antonio Primo Fontebasso, que deu a idéia de fabricar freios a ar para reboques. Aceitamos fazer a sociedade e constituímos a Mecânica Randon Ltda. Dois anos depois, Fontebasso adoeceu e se retirou da sociedade. Iniciamos, então, a fabricar o 3º eixo para caminhões e semi-reboques de 1 e 2 eixos.
Diante de tantas dificuldades, de onde vinham o espírito empr
eendedor e a persistência?
Raul Randon – Vinham das oportunidades. Nós ingressamos no ramo de equipamentos de transporte, porque o Brasil precisava disto. O mercado oferecia uma enorme oportunidade, especialmente no Sul, onde não tinha nenhum fabricante. Isto nos levou a fabricar carretas. Em 1964, foi estabelecida a Lei da Balança, por exigência do Banco Mundial, que financiava a construção das estradas e das grandes obras, o que veio a exigir um controle do peso da carga sobre os caminhões. Era outra grande oportunidade. Nesta época, meu irmão Hercílio, que era técnico e que tinha muitas idéias, criou o terceiro eixo para carretas, o sistema de suspensões de balancim, que possibilitou ampliar a capacidade de carga conforme a Lei da Balança.
Ou seja, foi uma mistura de oportunidades, ousadia e coragem para quem estava e está distante dos grandes centros consumidores?
Raul Randon – Nem digo que seja coragem. Sabes por quê? Se tu tens uma oficina e começa a trabalhar, tu vais observando as necessidades do cliente e vai avançando, olhando o mercado. Meu irmão cuidava da parte técnica e eu da parte comercial do negócio. O Nino, como era chamado, era mestre na parte técnica e na capacidade de desenvolvimento de produto. O fato é que existia o mercado e não havia mercadoria. Uma coisa puxa outra. Não houve um planejamento prévio. O mercado é que manda. A gente vai fazendo e ganhando dinheiro. Por exemplo: um amigo tinha um caminhão International. Vendeu e comprou um Scania e precisava de uma carreta-tanque de um eixo. Ele me pediu para fabricá-la, mas não tinha dinheiro para pagar. Mesmo assim, aceitamos o pedido. Com isto, foi possível para ele continuar trabalhando. Ele veio a comprar outros tantos produtos de nós, cumprindo integralmente seus compromissos financeiros com nossa empresa .
Como foi a sua infância? Qual a melhor e a pior lembrança do guri Raul?
Raul Randon – De bom é que nós brincávamos bastante. Tomávamos café, saíamos de manhã, íamos à escola, voltávamos para casa, almoçávamos e saíamos para brincar, por vezes sem a autorização de minha mãe. Quando voltávamos à noite, já sabíamos que teríamos a recompensa: a vara. Mas o fato é que nós ficávamos fora de casa, sem perigo. Éramos livres. Tínhamos muitos amigos. Bolinha de gude, peão, carrinho de lomba, cinco marias. Caça. Pesca. Lembro de uma história de meu irmão pescando na beira do rio onde ele construiu uma casinha em sociedade com um amigo. Nosso pai foi buscá-lo à noite, dizendo que quebraria a casa se ele não fosse, e o Nino respondeu: o senhor pode quebrar a minha metade, mas a metade do meu amigo não.
O senhor sempre fala em família. Qual a importância da família para o senhor e em que isto foi decisivo para o seu sucesso?
Raul Randon – A família é muito importante. Morávamos em Tangará e meus pais, vendo que Caxias estava crescendo e que haveria muitas oportunidades de desenvolvimento aqui, decidiram retornar.
O que o senhor gosta muito de fazer fora da empresa?
Raul Randon – Aos 18 anos apreciava caçar perdiz. Gosto muito de ver televisão, mas gosto mesmo é de estar com os amigos em volta de uma boa mesa e jogar cartas. Viajei muito, mas quase sempre viagens associadas ao trabalho, o que também é muito bom. Depois iniciei na agricultura para me distrair.
Tem algo que o senhor gostaria muito de fazer e ainda não se permitiu? O quê?
Raul Randon – Tem muita coisa ainda para fazer. Trabalhar não cansa. Ainda bem que temos muito trabalho para fazer. Seria uma vida vazia. Tem que ter compromissos, levantar cedo, sair para trabalhar. Os dias ficam curtos. Temos os amigos na empresa. Por isto criamos o Programa Novos Caminhos, que vai muito bem. Muitos já criaram seus negócios e continuam trabalhando, porque têm muitos anos pela frente. Quem trabalha 30 anos, se aposenta e fica sem fazer nada, adoece.
Na trajetória das Empresas Randon, deve ter havido muitos pontos altos e baixos. Quais o senhor relembraria: positivos e negativos?
Raul Randon – O início dos anos 80, foi uma época muito difícil, quando tivemos que despedir funcionários. Mas tem coisas muito boas. Por exemplo: ver clientes que começaram conosco crescendo, completando 40 anos, 50 anos, 60 anos. Outra coisa boa é lembrar a nossa própria evolução. Em 1970, quando eu estava visitando uma feira na Europa, vi que Itália e Alemanha juntas tinham em torno de 110 milhões de habitantes e o Brasil tinha 80 milhões. Só que na Europa toda produzia-se 30 mil carretas por ano e os Estados Unidos 80 mil. Nós, no Brasil, produzíamos somente 5 mil. Naquele ano, 1970, a Randon produziu 700 unidades. Voltei e falei para o meu irmão: vamos fazer uma fábrica para produzir 1000 unidades por mês (não por ano). Fizemos um projeto e em 1971 compramos uma um colônia (cerca de 24 hectares), onde instalamos a fábrica com área construída de 40.000 m². Em 1972, iniciamos as negociações da licença de fabricação do caminhão fora-de-estrada com a Kockum, empresa sueca, e o lançamos em 1974, quando inauguramos a nova fábrica. Antes, em 1971, abrimos o capital. Mais tarde, fizemos parceria com a Rockwell americana, hoje ArvinMeritor, com quem negociamos durante três anos e nos associamos para fazer freios em 24 de abril de 1986. Um ano depois, inauguramos a Master. Depois veio a JOST no mesmo formato, de associação com a alemã JOST-Werke, ou seja, criando uma terceira empresa que não interfere nas demais. Depois veio a Suspensys. A Randon criou estas empresas e hoje é cliente delas.
O senhor já teve medo de errar como empresário?
Raul Randon – Não, porque as decisões são baseadas nas oportunidades de mercado. Sempre trabalhei com equipe e com equipe é mais difícil de errar.
Se o senhor tivesse que recomeçar hoje, em qual setor investiria seu dinheiro?
Raul Randon – Faria tudo de novo. E melhor. O transporte nunca irá parar. Tudo que é produzido tem que ser transportado. Daqui há 10 anos, como será o transporte? Nós, fabricantes, é que temos que ver isto e oferecer melhores alternativas para o cliente. Há 30 anos, nós pensávamos em fazer uma fundição. Só agora vamos inaugurar a Castertech, que será uma empresa muito moderna.
A Randon completará 60 anos em 2009. Como o senhor vê a empresa daqui a 60 anos?
Raul Randon – É continuar sempre. Acho que estamos no caminho. Aqui em Caxias mesmo muitas empresas familiares desapareceram. Mas temos a empresa organizada, inclusive com regras para as famílias. Temos uma holding que disciplina tudo. Dificilmente a Randon desaparecerá na maneira como está constituída.
Próximo de completar 80 anos de vida e, certamente, mais de 65 anos de atuação profissional, que lhe conferem respeito mundial, o que o ainda lhe motiva a permanecer à frente do grupo?
Raul Randon – É o trabalho. Criamos isto tudo. Estamos sempre aqui dentro. Mas é trabalhar e gostar. É preciso cuidar muito do pessoal dentro da empresa, desde que éramos meia dúzia de pessoas. Saúde, principalmente.
E a área social, sempre tão carente no País? O senhor defende o caminho da educação como o grande instrumento de transformação. O senhor imaginaria um grande Florescer no Brasil? O Programa Florescer nasceu a partir de uma idéia sua. Quando o senhor ouve falar no Florescer, quais sentimentos passam pelo seu coração?
Raul Randon – O projeto do Florescer foi cuidadosamente estudado. Fizemos um levantamento minucioso de como seria o melhor sistema para dar assistência aos jovens. Minha teoria sempre foi de que os jovens teriam que permanecer na escola o dia todo. Qual o casal que tem filhos que não gostaria de levá-los à escola pela manhã, ao saírem para o trabalho, e à tardinha, ao regressar, buscá-los na escola para retornarem ao lar? O Florescer está dando certo. Tem que haver a solidariedade de todas as partes. Hoje estamos inaugurando franquias e em breve teremos mais de 1000 jovens beneficiados. Vamos em frente, porque não há outra saída de tirar a juventude do risco que não seja através da educação. Depois do Florescer, vem o Qualificar, de onde eles saem profissionais, prontos para o trabalho.
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